Auto da Barca do Inferno


Gil Vicente


A peça se passa durante a Idade Média. Em um porto imaginário, estão ancorados dois barcos. O primeiro chama-se a Barca da Glória; ele é comandado por um anjo, e tem como destino o Paraíso. O segundo é a Barca do Inferno, e é tripulado pelo Diabo e seu companheiro. Os barcos estão ancorados e aguardam a chegada das almas, que serão julgadas de acordo com seus atos enquanto eram vivas e destinadas a um dos dois barcos. O anjo se mostra um tanto silencioso e modesto; já o Diabo e seu companheiro estão muito animados, pois esperam lotar rapidamente sua embarcação.

O primeiro a chegar é o fidalgo. Ele vem vestido com uma roupa requintada e vem acompanhado de um pajem, que carrega uma cadeira, simbolizando o seu status social. Esse representante da nobreza é condenado à Barca do Inferno por ter sido um tirano e levado uma vida cheia de luxúria e pecados. A arrogância e o orgulho do fidalgo são tamanhos que ele zomba do Diabo ao ser informado do seu destino, pois havia deixado no mundo dos vivos quem rezasse por ele. Ele dirige-se para a Barca da Glória mas é rejeitado pelo anjo. Só então percebe que de nada valem as orações encomendadas e se mostra arrependido. De nada adianta, e ele é obrigado a embarcar no barco infernal.

O segundo personagem a ser julgado é o agiota. Ao chegar ao porto, o Diabo o saúda como se fosse seu parente e manda que ele entre. Ao descobrir o destino do barco infernal, o agiota recusa-se a embarcar e vai até a Barca da Glorificação, mas o anjo o recusa pela sua ganância, usura e avareza. O agiota tenta então convencer o Diabo a deixá-lo voltar ao mundo dos vivos para buscar o dinheiro que acumulou durante a sua vida. Mas o Diabo não cede a seus argumentos e ele acaba entrando na Barca do Inferno.

A próxima alma a chegar é o pobre. Desprovido de tudo, ele é recebido pelo Diabo, que tenta convencê-lo a entrar em sua barca. Ao descobrir o destino do barco, o pobre xinga o Diabo e vai até o anjo. Lá chegando, o pobre diz não ser ninguém e, por causa da sua humildade e modéstia, ele é aceito na Barca da Glorificação.

O outro personagem que chega é o sapateiro, que traz consigo todas as sua ferramentas de trabalho. Ele é condenado por roubar o povo com seu ofício durante trinta anos e por sua falsidade religiosa. De nada adianta seu apelo ao anjo.

Acompanhado pela amante, chega o frade. Alegre, cantante e bom dançarino, o frade veste-se com as tradicionais roupas sacerdotais mas traz sob elas instrumentos e roupas usadas pelos praticantes da esgrima, na qual ele é muito hábil. O Diabo o convida a entrar na sua embarcação, o que causa indignação no frade, pois ele foi um religioso e acredita que seus pecados deveriam ser perdoados. Ele e a amante seguem para o Barco da Glorificação, onde o anjo sequer lhe dirige a palavra, tamanha a sua reprovação. Cabe ao pobre a tarefa de condenar o frade à Barca do Inferno por seu falso moralismo religioso e comportamento escandaloso.

Depois do frade, chega Brísida Vaz, uma mistura de feiticeira e alcoviteira. Ao ser recebida pelo Diabo, ela declara possuir muitas jóias e três arcas cheias de materiais usados em feitiçaria. Ela gaba-se de ter prostituído seiscentas meninas, nem todas das quais eram virgens, tendo assim também enganado muitos homens. Ela tenta convencer o anjo a deixá-la entrar no seu barco, usando todos os recursos de sedução que dispõe, mas de nada adianta. Ela é condenada à Barca do Inferno pela prática de feitiçaria, prostituição e alcovitagem.

A seguir, chega o judeu, acompanhado de seu bode, símbolo do Judaísmo. Ele dirige-se ao barco infernal e até mesmo o Diabo, que sempre mostrou-se muito ansioso por almas, recusa-se a levá-lo. Então o judeu tenta subornar o Diabo, mas ele o aconselha a procurar a outra embarcação, alegando que não pode levar bodes na sua barca. A seguir, o judeu tenta aproximar-se do anjo, mas o pobre o impede, alegando que ele em vida desrespeitou o Cristianismo. Por alguns instantes, parece que o destino do judeu é ficar vagando sem destino pelo porto, mas o Diabo acaba decidindo levar o judeu e seu bode rebocados na sua barca.

Depois do judeu, surge o juiz, trazendo consigo vários processos. Ao ser convidado a embarcar na Barca do Inferno ele começa a argumentar em sua defesa. No meio da argumentação, chega o procurador, trazendo consigo vários livros. Ao ser chamado a embarcar, ele também se recusa e os dois conversam sobre os crimes que cometeram juntos enquanto seguem para a Barca da Glorificação. Os dois usam vários termos em latim misturados a termos jurídicos, de difícil compreensão. No entanto, o anjo, ajudado pelo pobre, não permite que eles embarquem, condenando-os à barca infernal por usarem o poder do Judiciário em benefício próprio. Dentro da Barca do Inferno, o juiz e o procurador conversam animadamente com Brísida Vaz, mostrando assim que eles se conheciam muito bem.

O próximo personagem a ser julgado é Pero de Lisboa, que tinha sido enforcado, e ainda traz no pescoço a corda usada na sua execução. Tudo indica que ele tinha cometido vários crimes em nome de seu chefe, Garcia Moniz. Ele acredita que a morte na forca o redime dos seus pecados, mas isso não ocorre e ele é condenado. Ao entrar na Barca do Inferno, ele é saudado por Brísida Vaz; aparentemente, Pero também trabalhava no Judiciário e conhecia vários dos condenados.

Os últimos personagens a chegar são quatro cavaleiros que morreram nas Cruzadas em defesa do Cristianismo. Eles passam cantando pelo barco infernal. O Diabo os convida a entrar, mas eles o ignoram e seguem em direção à Barca da Glorificação, onde são recebidos pelo anjo. O fato de morrer por Cristo garante a eles uma espécie de passaporte para a salvação.

Última atualização: 26/07/2009, 21:15
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