Última atualização:

20/08/2011, 21:00


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Júlio Verne


O ano de 1866 foi marcado por um evento bizarro. Vários navios retornaram a seus portos gravemente avariados após terem sido atacados por uma coisa enorme, infinitamente maior e mais forte que uma baleia. A Ciência desconhecia qualquer ser vivo desse tamanho. Várias hipóteses são levantadas; a mais convincente era a existência de um monstro marinho, de força colossal, sem parentesco com nada catalogado. O medo se instala nos oceanos. Organiza-se uma expedição; a fragata americana ”Abraham Lincoln” é enviada para livrar os mares do monstro. A bordo, se encontram o capitão Farragut; o canadense Ned Land, o rei dos arpoadores; o naturalista e ictiólogo francês Pierre Aronnax, professor do Museu de Paris; e Conselho, seu fiel criado. Devido às suas origens francófonas, Ned aprecia conversar com Aronnax. Ned acha que o monstro é apenas um grande narval, mas é o único a bordo a ter essa opinião.

Passam-se cerca de seis meses e a tripulação está desanimada, pois a busca nada revelara. No dia 5 de novembro de 1867, no meio do Oceano Pacífico, Ned Land avista o monstro imergindo a algumas braças de distância. O animal começa a brincar com a fragata. Sua velocidade é impossível de acompanhar, mas no momento em que conseguem se aproximar para o arpoador tentar um arremesso, o monstro abalroa violentamente a fragata, e a deixa desamparada.

Quando a noite cai, aproveitando o sono do monstro, a fragata se aproxima lentamente do animal. Ned Land o atinge em cheio com seu arpão. Todos ouvem nitidamente o som surdo da arma, que parece ter se chocado com um corpo muito duro. Subitamente, duas enormes trombas d’água se abatem sobre a ponte do navio, lançando Ned Land e Aronnax no mar. Conselho, o fiel criado, lança-se às águas do Pacífico para acompanhar seu patrão. Os três se refugiam no dorso do monstro. Eles se assombram ao perceber que se trata de uma máquina, não de um ser vivo.

Recebidos sem cortesia e feitos prisioneiros, os três náufragos descobrem um extraordinário submersível, o ”Nautilus”, sua misteriosa tripulação, que fala uma língua incompreensível, e seu comandante, o capitão Nemo. Sua nacionalidade e intenções são absolutamente enigmáticas; é um homem misantropo e que parece ser hostil à Humanidade. Entretanto, ele parece ter uma certa estima pelo cientista francês e deseja fazê-lo conhecer o universo do qual se apossara, as profundezas oceânicas e seu submersível.

Enquanto Ned Land e Conselho fazem sua refeição na sua cabine, Aronnax é convidado à sala de jantar de Nemo. No final da refeição, eles fazem uma visita pelo ”Nautilus”. Uma porta dupla se abre e eles entram numa soberba biblioteca com 12 mil volumes. Esse aposento também serve como local para fumar. Nemo diz que tudo o que estava a bordo, exceto alguns poucos itens, havia sido retirado do mar. Nemo abre outra porta e eles entram em um museu. Nele estavam reunidos todos os mais belos tesouros da Natureza e da Arte. A seguir, eles visitam sua cabine e ela parece ser bastante elegante. Ao lado, fica a cabine do capitão. Inúmeros instrumentos de medição da navegação estavam pendurados na parede, alguns dos quais eram desconhecidos. Depois, eles passam diante da cabine de Ned Land e de Conselho, da cozinha, da sala da tripulação, da sala de máquinas e, finalmente, retornam ao salão. Aronnax deseja saber como funciona o ”Nautilus”. As explicações dadas por Nemo o encantam. O próprio Nemo havia concebido o ”Nautilus” e se revela um prodigioso engenheiro, que havia resolvido os problemas da navegação subaquática com o uso da eletricidade. Aronnax indaga se Nemo é rico. Ele responde que poderia pagar toda a dívida da França sem se preocupar. Depois, Nemo anuncia o início de uma viagem onde darão a volta ao mundo oceânico, e que poderá ser a última. Aronnax, que estava de pé sobre uma plataforma para ver o sol, dá uma última olhada ao mar amarelado. É o dia 8 de novembro. O ”Nautilus” torna a se fechar e mergulha na água calma.

Deixado sozinho no salão, Aronnax reencontra Ned e Conselho. A escuridão chega subitamente. De repente, a luz do dia atravessa duas aberturas oblongas. As massas líquidas são claramente visíveis através das influências elétricas. É um espetáculo belíssimo.

Passam-se cinco dias sem que o capitão apareça. No sexto dia, Aronnax e seus amigos recebem um convite para uma caçada submarina nas florestas da ilha Crespo, pertencente a Nemo. Vestidos com um escafandro revolucionário, eles saem do submarino. Ned prefere ficar a bordo. Eles descobrem um mundo maravilhoso e impossível de descrever.

As semanas passam e eles fazem visitas muito frugais. Eles passam a maior parte do tempo no salão, contemplando o mundo marinho que é visível através das espessas janelas.

De repente, uma enorme massa negra surge imóvel no meio das águas. Trata-se de um navio que havia afundado pouco antes. Essa carcaça perdida sob o mar era um triste espetáculo, mas ainda mais triste era a visão da sua ponte, onde os cadáveres ainda pendiam amarrados por cordas. Essa foi a primeira das catástrofes marítimas com as quais o ”Nautilus” iria se deparar na sua rota. Mais tarde, ele atravessa as ilhotas de Vanikéro, onde La Pérouse naufragara.

Na noite de 27 para 28 de dezembro, o ”Nautilus” encalha no Estreito de Torres, o mais perigoso do mundo. Para grande surpresa de Aronnax, Nemo permite uma liberdade relativa dos três prisioneiros. Eles podem portanto caçar seu alimento e recolher frutas e legumes, que Ned Land prepara com habilidade. Mais tarde, o ”Nautilus” consegue partir, como havia previsto o capitão, depois de ter sido atacado pelos nativos canibais. No dia seguinte, 10 de janeiro, o ”Nautilus” retoma sua marcha para o Oceano Índico. Durante o trajeto, o capitão Nemo dá novos resultados das suas pesquisas para Aronnax.

No dia 16, o ”Nautilus” parece estar adormecido. Mas um acontecimento vem lembrar aos três náufragos a estranheza da sua situação. Com sua solenidade auto-imposta, o capitão Nemo ordena a seus hóspedes que permaneçam confinados em suas cabines até o momento conveniente, conforme havia sido dito a eles quando vieram a bordo. Eles só despertam no dia seguinte, graças a substâncias soníferas que haviam sido colocadas no seu jantar. Mais tarde, Nemo pede a Aronnax que cuide de um dos seus marinheiros. Mas o pobre homem estava mortalmente ferido e seus dias estavam contados. Nemo é evasivo sobre as causas deste acidente.

No dia seguinte, Nemo propõe um passeio. Para grande surpresa de Aronnax e seus companheiros, eles assistem à celebração do enterro do marinheiro falecido na véspera, em um soberbo cemitério de corais. Este era o cemitério de Nemo e dos seus, um lugar sossegado e fora do alcance dos tubarões e dos homens.

A expedição retoma sua rota rumo à Índia, mas esta viagem deixa Aronnax pensativo sobre as reais intenções de Nemo. Alguns dias mais tarde, no final de janeiro, Nemo propõe uma nova expedição ao largo do Ceilão, lugar deserto nesta época, próximo aos bancos de ostras das quais se extraíam pérolas. Além disso, ele também os convida a caçar tubarões.

Na manhã seguinte, eles percorrem o banco de ostras, armados com facas, exceto Ned, que carrega um arpão. No fundo de uma gruta, eles vislumbram uma ostra gigantesca, que contém uma pérola enorme. Ela era a glória de Nemo. No caminho de volta, tocado por um sentimento profundo de justiça, o capitão não hesita em salvar a vida de um pobre pescador de pérolas, atacado por um esqualo gigante. O capitão não perdera sua afeição pelo gênero humano, mas a reservara apenas para os oprimidos.

Passando do Mar Vermelho para o Mediterrâneo graças a um túnel sob o istmo de Suez criado pela Natureza, Nemo doa o ouro que ele havia recolhido dos destroços submersos aos cretenses rebelados contra os turcos.

À medida que o ”Nautilus” se aproxima do Estreito de Gibraltar, as profundezas ficam cada vez mais atravancadas de destroços. Após passar o estreito, o ”Nautilus” sobe o Atlântico a algumas milhas da costa portuguesa. Ned Land havia traçado um plano para fugir na noite seguinte com seus companheiros. Quando cai a noite, o ”Nautilus” se imobiliza na Baía de Vigo para recolher o ouro de uma frota espanhola que havia afundado ali, fazendo fracassar a tentativa de evasão.

Depois desta primeira tentativa frustrada, sempre que o ”Nautilus” se afasta para as costas ao sul-sudoeste, Nemo propõe um passeio noturno a Aronnax. Ele descobre um vulcão em atividade nas profundezas do oceano. Este vulcão e os monumentos submersos que o rodeiam pertenciam à grande cidade submersa conhecida como ”Atlântida”. Nesta região, Nemo havia transformado um vulcão extinto em um refúgio inexpugnável para renovar suas provisões de sódio e outros combustíveis.

Mais tarde, após ter atingido as maiores profundidades do oceano no Mar dos Sargaços, o ”Nautilus” se envolve em um combate para salvar baleias atacadas por cachalotes. Graças ao esporão que desponta na proa do ”Nautilus”, Nemo causa uma verdadeira carnificina, que entusiasma Ned Land. O mar fica coberto de cadáveres mutilados.

A viagem prossegue até debaixo da banquisa, no Pólo Sul, onde nenhuma pessoa jamais havia se aventurado. De lá ela segue rumo ao desconhecido e Nemo finca sua bandeira, um pavilhão negro com um ”N” esquartelado como sinal de posse. Mas eles ficam bloqueados sob o gelo por cinco dias; os aventureiros escapam do sufocamento por muito pouco e navegam até as bordas do Amazonas.

Depois de seis meses de cativeiro, a tentação de fugir se faz cada vez mais presente; nada se fala a respeito para acalmar as suspeitas de Nemo, que se tornara mais discreto.

Certa ocasião, os três prisioneiros lutam com lulas gigantes, armados de machados e arpões. Um dos marinheiros é agarrado por um polvo gigante; ele dá um último grito em francês pedindo socorro, mas é em vão. Aronnax compreende que todos esses homens tinham uma linguagem materna bastante diferente do estranho idioma que utilizam a bordo do ”Nautilus”.

Eles navegam até a costa escocesa, onde descobrem os restos do ”Vingador”, barco francês afundado pelos ingleses depois de uma batalha heróica em 1797. Ali, Aronnax, Ned e Conselho confirmam suas suspeitas sobre a motivação de Nemo. Daí em diante, eles não acreditam mais que o ”Nautilus” seja apenas um pacífico instrumento de pesquisa de um cientista; ele também se revela uma arma utilizada para uma terrível obra de vingança.

No sombrio dia 2 de julho, o capitão Nemo envia para o fundo do mar um navio de guerra de nacionalidade desconhecida, com toda a sua tripulação, acusando-o de pertencer a uma ”nação maldita”. Não mais pode haver dúvidas para o mundo que o ”monstro” era na verdade um barco submarino. Muito mais tarde, a identidade do capitão Nemo seria atribuída à de um antigo príncipe indiano, do qual os ingleses haviam despojado de tudo após exterminar sua família, e que agora perseguia os inimigos com um ódio implacável.

Um clima de terror e de tristeza se instala a bordo. Sem que se saiba se se trata de uma decisão premeditada ou de uma simples negligência, o ”Nautilus” se deixa arrastar pelo tremendo redemoinho do Maelstrom, no norte da Noruega. Seus três prisioneiros involuntariamente se aproveitam desse momento difícil para tentar uma fuga desesperada. Eles embarcam numa chalupa e são arrancados do flanco do submarino pela fúria do turbilhão.

Milagrosamente salvos, Aronnax e seus amigos recuperam sua liberdade. Eles vão dar nas ilhas Lofoten e de lá retornam à França. No entanto, não conseguem saber o destino do ”Nautilus”, no qual navegaram oito meses pelo mundo submarino.